terça-feira, 2 de março de 2010

Vril, o poder da Raça Futura

Lord Edward George Bulwer-Lytton (1803-1873) é conhecido pelo público brasileiro como o autor de “Os Últimos Dias de Pompéia” (1834), um grande clássico da literatura inglesa e, sobretudo, pelo romance ocultista “Zanoni” (1842), que teve incontáveis reedições no Brasil. Nasceu em Londres, em 25 de maio de 1803, numa família aristocrática e já compunha versos desde os dez anos de idade. Estudou em Cambridge, onde se destacou como poeta e dramaturgo; em 1831 ingressou na política e foi ministro de Assuntos Exteriores, aproveitando para fazer contato com sociedades secretas chinesas. Seu habilidoso trabalho na política lhe valeu o título de Primeiro Barão de Lytton.
Além de político destacado, foi também ocultista praticante, interessado nos mais diversos fenômenos paranormais e seu interesse pela magia e pelo espiritualismo o levaram a conhecer o célebre ocultista francês Eliphas Lévi. A Sociedade Rosacruz Inglesa, fundada em 1867 por Robert Wentworth Little, elegeu Bulwer-Lytton como “Grande Patrono“, mas ele escreveu para a sociedade dizendo-se ”extremamente surpreso“ por este título e recusou-o. No entanto, muitos grupos esotéricos têm reivindicado a filiação de Bulwer-Lytton, principalmente porque alguns de seus escritos, como”Zanoni”, contém noções esotéricas e rosacrucianas. Diz-se também que teria sido membro da Irmandade Hermética de Luxor, ultra-secreta sociedade rosacruciana que, segundo autores esotéricos, teve um papel importante na política, na cultura e no espiritualismo do Século XIX. Mas em público, o escritor não costumava falar de sua relação com os fenômenos psíquicos, embora na sua autobiografia encontrem-se referências ao médium Douglas Home e a algumas sessões espíritas, junto com o seu filho. Nada mais natural, portanto, que o misticismo e o sobrenatural tenham inspirado várias obras do novelista, em especial  “Zanoni”, “Uma estranha história” e “A casa e o cérebro”.
Estranhamente, os editores brasileiros ignoraram até agora uma de suas obras mais curiosas, Vrill, the Power of the Coming Race. Atraído pelo gênero fantástico nas suas diversas vertentes, Lytton publicou esse romance em 1871, no célebre “Blackwood’s Magazine”, uma obra que tem a originalidade de abordar assuntos que se tornariam correntes na ficção-científica. Em muitos aspectos trata-se de um texto antecipador, abrangendo temas que vão do feminismo, passando por reformas políticas e sociais, e a invenções tecnológicas. Pode-se estabelecer um elo entre a obra de Lytton e a “Utopia”, de Thomas More e, sobretudo, com alguns textos de Júlio Verne e H.G. Wells. O mito da Atlântida, a existência de prodigiosas forças eletromagnéticas, as potencialidades da ciência e da tecnologia, a adoção de modelos sociais avançados – tudo isso permeia a história dessa “raça futura” que, um dia, surgindo das profundezas da terra, dominará o mundo.

Uma utopia socialista

A tentativa de conceber uma sociedade utópica seduziu muitos pensadores e novelistas de mérito universal reconhecido ao longo do tempo, desde a República de Platão, passando por Thomas Morus com a sua Utopia, por Bacon com a Nova Atlântida, e Campanella e sua Cidade do Sol.
No mundo utópico de Lytton, o ideal socialista foi plenamente alcançado; ali reina a igualdade absoluta e a harmonia não só entre homens e mulheres, mas também entre as classes sociais. O mais humilde cidadão goza da mesma consideração de um magistrado supremo. Não há vaidade, egoísmo, culto à personalidade ou amor à fama. Os mais elevados cargos da comunidade não trazem consigo privilégios nem vantagens pecuniárias. Todo cidadão coloca o bem estar da comunidade acima de tudo, até mesmo da sua própria sobrevivência. Não há pobres, pois uma carga tributária intolerável numa sociedade como a nossa, é usada sabiamente de modo a prover as necessidades básicas dos menos afortunados. Tudo isso lembra as mais caras aspirações depositadas pelos filósofos num regime socialista, mas Lytton não é tão ingênuo ao ponto de acreditar que apenas um credo político poderia fazer funcionar uma sociedade tão perfeita. Ele sabe que este tipo de sociedade só pode dar certo com homens também perfeitos, tanto do ponto de vista ético, moral, intelectual como racial. E a base metafísica e religiosa que sustenta este mundo é a crença geral num ser supremo e a certeza de uma vida melhor após a morte, sem discussões ou considerações sobre o além. Aliás, os habitantes desse mundo subterrâneo (que poderia muito bem ser em outro planeta ou dimensão, dadas as suas diferenças em relação ao nosso mundo), depois de séculos de guerras e querelas filosóficas, científicas e religiosas, chegaram à sábia conclusão que discussões metafísicas só levam a disputas inúteis, perda de tempo e guerras, concluindo pela absoluta impossibilidade de conhecer os atributos da divindade e o que existe depois da morte. Portanto, alcançaram a paz absoluta abolindo tais discussões e dedicando-se apenas a atividades utilitárias, em prol do bem estar geral.
Há um tom velado de ironia em algumas passagens da obra; assim, a teoria aceita pela raça do mundo subterrâneo sobre a sua origem é um evolucionismo abstruso: este povo acredita descender das... rãs! Em mais de um trecho fica evidente o atraso da nossa civilização, simplesmente pela descrição de outra que chegou às raias da perfeição. Aliás, esta é a tônica da obra e aí está, verdadeiramente, a ameaça que pesa sobre nossas cabeças, ao perpetuarmos esta civilização belicosa, individualista, injusta e desumana, que poderá arrastar-nos mais cedo ou mais tarde à destruição...
Outro detalhe da sociedade descrita por Lytton, e que lhe dá um cunho verdadeiramente antecipador e
moderno, são as relações entre os sexos; mas ele vai mais além da simples igualdade: a mulher é o sexo forte, e quem toma a iniciativa da conquista, em assuntos amorosos.
Lytton abusa de descrições detalhadas sobre a organização social, o regime político, a estrutura da língua desse povo subterâneo, com tanta ênfase que quase somos levados a crer que se trata de algo que o autor viu com seus próprios olhos. Muitas das comodidades modernas são descritas nesta novela: elevadores, aeroplanos, música ambiente, autômatos, máquinas agrícolas, veículos automotores; há até um capítulo dedicado à forma mais civilizada de lidar com a morte: a cremação de cadáveres... O próprio vril parece uma antecipação da energia nuclear, que ainda hoje a humanidade não aprendeu a usar com sabedoria. Uma das poucas antevisões desta novela ainda parece distante: a realização de um dos mais antigos sonhos do homem: a de voar como os pássaros. Perto das asas do povo subterrâneo movidas pela energia do vril, nossas asas deltas e ultra-leves com motor à explosão parecem engenhos rudimentares e primitivos...
Graças a esse talento visionário, há quem acredite que A Raça Futura seria mais do que uma obra de ficção, mas o relato de alguém que teria de fato conhecido esse mundo oculto... O livro foi bastante popular no final do século 19, e a palavra Vril chegou a ser associada a “elixires da vida.” 
O conceito de Vril recebeu um novo impulso pelo autor francês Louis Jacolliot (1837-1890), que foi cônsul francês em Calcutá. Em Les Fils de Dieu (1873) e Les Traditions Indo-européennes (1876), Jacolliot alega que encontrou Vril entre os jainistas em Mysore e Gujarat. No século XX, o Vril também foi incorporado a teorias sobre discos voadores nazistas.
Muitos comentaristas convenceram-se de que a idéia do fictício Vril foi baseada em uma verdadeira força mágica. Helena Blavatsky, a fundadora da Teosofia, endossou essa visão em seu livro Isis sem Véu (1877) e novamente em  Doutrina Secreta (1888). Para Jacolliot e Blavatsky, a energia Vril dominada por uma elite humana é parte de uma doutrina mística de uma raça desconhecida de nós. No entanto, o caráter do povo subterrâneo foi transformado por eles e, em vez de potenciais conquistadores, estranhamente tornaram-se benevolentes guias espirituais... Quando o teosofista William Scott-Elliot descreve a vida na Atlântida em The Story of Atlantis & The Lost Lemuria (1896), o avião dos atlantes é movido pela energia Vril. Obviamente, ele não considerou a descrição como ficção, e seus livros ainda são publicadas pela Sociedade Teosófica.
 
Mundo Subterrâneo
É curioso que Bulwer-Lytton ambiente a trama da ação de seu romance num mundo subterrâneo (o clássico Viagem ao Centro da Terra, de Júlio Verne, foi publicado em 1864), mas a crença neste mundo, por mais absurda que pareça, ainda hoje tem adeptos, haja visto a existência de vários livros sobre o tema. A referência a esse povo imaginário pode ser encontrada nas obras de Saint-Yves d’Alveydre (Mission de L’Inde en Europe), de René Guénon (O Rei do Mundo) e principalmente n’A Terra Oca de Raymond Bernard. Estes autores abordam a lenda segundo a qual, antes do dilúvio que submergiu a velha Atlântida, os seus sábios sacerdotes, prevenidos da próxima catástrofe, conduziram os sobreviventes do seu povo para o interior da Terra. Assim, a civilização da Atlântida permaneceu não só intacta, como desenvolveu-se até aos nossos dias. Tanto no Oriente como no Ocidente, os mitos, as lendas e o folclore de todos os povos deixaram registros desse acontecimento. Desde a mais remota antiguidade, há referências a uma terra sagrada, a um mundo subterrâneo que é a moradia dos deuses, o Éden da eterna felicidade, chamado por alguns de Shamballa ou Agartha. No Brasil, muitos místicos e teosofistas acreditam piamente nisso, apoiando-se em certas profecias que asseguram que, quando chegar a hora, esta raça de homens superiores, de seres evoluídos e forjados por milênios de civilização ininterrupta, virá instalar-se nos continentes à superfície do Terra. O lendário coronel Fawcett, inspirado por esse mito, desapareceu nas selvas brasileiras em busca dessa civilização perdida...
A verdade é que A Raça Futura acabou dando origem a um mito que foi sendo enriquecido ao longo do tempo por novos relatos, desde que veio à público no século XIX. Assim, o aventureiro polonês
Ferdinand Ossendowsky descreve em seu livro “Bestas, Homens e Deuses” (Londres, 1923, p. 313-314) o relato de uma visita do  “Rei do Mundo” (que mora na cidade subterrânea de Agartha...) ao mosteiro tibetano de Narabanchi em 1890. Em uma profecia feita ao Dalai Lama, ele teria previsto uma sucessão de horrores para o próximo século, ao final dos quais “o povo de Agartha vai deixar suas cavernas e aparecer na superfície da Terra”. Baseados na suposta profecia do Rei do Mundo, alguns autores acreditam que a invasão desse povo subterrâneo ocorrerá em 2029. A lenda ganhou reforço adicional graças a autores recentes, como Raymond Bernard, que misturou a idéia de A Raça Futura de Bulwer-Lytton  com especulações sobre civilizações que vivem no interior da Terra oca. Aliás, o conceito da Terra oca foi defendido pela primeira vez por Sir Edmund Halley no final do século XVII. Em contrapartida, na obra de Bulwer-Lytton, esse povo morava em cavernas subterrâneas na crosta da terra sólida e o mundo dos Vril-ya é sempre descrito como túneis subterrâneos, com iluminação artificial graças ao Vril. O livro não contém nenhuma referência a uma terra oca e as teorias desse tipo só foram elaboradas em obras posteriores, por outros autores que seguiram na sua esteira.
As especulações sobre o Vril não cessaram até hoje, o que prova o impacto provocado pela obra de Lytton, embora o assunto não tenha sido mais abordado pela Sociedade Teosófica. Um autor alemão chamado Wilhelm Landig ligou o Vril a supostos discos voadores nazistas e a uma fantasiosa fuga de dirigentes nazistas à Antártida...
Em 1960, Jacques Bergier e Louis Pauwels relataram a existência de uma Sociedade Vril, no livro Despertar dos Mágicos. Segundo eles, o Vril Society era uma comunidade secreta de ocultistas na Berlim pré-nazista, mas na verdade esta sociedade seria apenas uma espécie de círculo de estudos interno da Sociedade Thule. Há, também, a suposição de que mantinham estreito contato com o grupo inglês conhecido como Ordem Hermética da Golden Dawn. As informações sobre o Vril ocupam cerca de um décimo do volume, constituindo-se o restante em meras especulações esotéricas. Mas os autores não conseguem explicar claramente o que é verdade ou ficção. Em outro livro, sobre Gurdjieff, Louis Pauwels afirma que uma Sociedade Vril foi fundada pelo General Karl Haushofer, que teria sido discípulo  do “mago” e metafísico russo Georges Gurdjieff. Mas Pauwels, depois, retratou-se de muitas afirmações feitas em relação a Gurdjieff.
Todas essas especulações serviram para cercar esta novela de uma aura de misticismo, a tal ponto que há quem se refira a ela como uma “obra iniciática”, reveladora de um segredo ocultado dos profanos durante milênios. Quem acredita nisso pode decepcionar-se com a sua leitura, mas aqueles que apreciam um bom texto de ficção, permeado de observações filosóficas e que nos oferece um vislumbre do seria uma sociedade perfeita, há de fazer bom proveito deste livro.

Profecia
E já que falamos em profecias, numa das passagens de sua obra, Bulwer-Lytton põe na boca de Zee, uma das mais belas personagens da sua história, estas palavras proféticas: “Em nossos livros antigos há uma lenda, muito popular no passado, segundo a qual fomos expulsos de uma região que parece ter sido o mundo [da superfície], a fim de aperfeiçoarmos a nossa condição e alcançar o mais puro refinamento da nossa espécie por meio das terríveis batalhas que os nossos antepassados tiveram de travar e que, quando a nossa educação estiver finalmente concluída, estamos destinados a retornar ao mundo superior e a suplantar todas as raças inferiores que hoje o povoam.” 
O tom de elegia, de reverência inicial a esta civilização superior à humana em todos os sentidos dá lugar, ao final da obra, a um sentimento de desolação e Lytton a encerra com um alerta, prevenindo-nos que um dia a nossa raça, talvez em decorrência de nossa própria inaptidão para assimilar uma ética superior e viver em harmonia com o bem coletivo, poderá ser varrida da face da terra. Pela ótica de Lytton não há, pois, motivos para saudar o advento dessa nova raça. O nazismo, com seu culto à superioridade da raça ariana, que o diga...

Bira Câmara
(Prefácio da edição brasileira de "A Raça Futura", tradução de Júlia Câmara)

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

O conto da Serpente Verde, de Goethe

Seria o conto da Serpente Verde um puro jogo da fantasia? Uma parábola alquímica sobre o processo de iniciação hermética? Ou simples alegoria política e histórica de que Goethe serviu-se para registrar sua posição diante da Revolução Francesa e os seus efeitos? A multiplicidade de níveis de leitura de "A Serpente Verde" e o interesse despertado ao longo do tempo nos mais diversos estudiosos, atesta senão a sua genialidade, ao menos a sua característica sui-generis. Oswald Wirth, Ronald Gray, Rudolf Sterne, Jung e Yvette Centeno entre outros, debruçaram-se no estudo deste conto desenvolvendo estimulantes interpretações.Obra intemporal, podemos sem muito esforço encontrar nela uma relação direta com o momento atual, pois o conto aborda simbolicamente a viragem de uma época para outra. Aliás, o tema "nova era" já estava na pauta de pensadores como Goethe e Schiller, preocupados com a transformação social e a real evolução do espírito humano. Para Goethe, especificamente, isto seria uma tarefa para séculos, passando necessariamente por uma lenta e gradual transmutação no plano individual.Alguns astrólogos vêem na Revolução Francesa o primeiro sinal da decantada era de Aquário, marco inicial da derrocada do autoritarismo para dar lugar aos novos tempos de igualdade, liberdade e fraternidade. Sem dúvida, tratou-se de um passo importante na esfera social, preparação necessária para um novo tempo. Agora, a próxima revolução deverá se dar no plano individual, com a morte iniciática e o conseqüente renascimento do homem em uma nova condição, capaz de vivenciar não só uma ética superior, mas também compreender o verdadeiro sentido do Amor e da Renúncia. A Serpente representa esta transfiguração, a ponte sem a qual jamais ultrapassaríamos o estágio em que estamos, alcançando aquele em que o "Eu" está pronto para sacrificar-se pelo "Nós".Este conto é, pois, um fino manjar para os apreciadores da boa literatura, engajada na temática alquímica e passando longe das fórmulas fáceis e da moral duvidosa de pretensos mestres com seus falsos magos e alquimistas.Através de um primoroso ensaio de interpretação, Oswald Wirth concluiu que este conto nos revela a essência e as profundezas mais remotas do pensamento de Goethe. E, como ele, o leitor irá concordar que a Serpente Verde "é um animal que se decompõe em pedras preciosas. Esforcemo-nos para recolher o maior número delas"...

Goethe e as Afinidades Astrológicas

Goethe (1749-1832), além de escritor genial tam­bém se dedicou a estudos alquímicos e se inte­ressou pela astrologia. Pesquisou o momento exato do seu nascimento e levantou horóscopos com o propósito de compará-los com o seu. Assim, registrou a coincidência entre sua casa solar (o signo de Virgem) e a casa lunar de Chris­tiane Vulpius, a mais importante de suas amantes...
Goethe atribuía o êxito de seus dois principais personagens, Fausto e Werther, ao concurso de alguns planetas benéficos em seu mapa astrológico: Sol em Virgem; Júpiter e Vênus em bom aspecto com ele; Saturno e Marte neutros... Acreditava mesmo que havia sobrevivido ao parto graças a esta feliz constelação, pois, ao nascer fora dado como morto e só depois de muitos esforços conseguiu ver a luz.
Goethe tornou-se membro da franco-maçonaria em 1780. Mas antes disso, perto de seu vigésimo aniversário, ele já era iniciado em todos os conhecimentos misteriosos do passado. Durante o período de 1768 a 1770 teve sérios problemas de saúde e curou-se com a ajuda de um médico adepto de Paracelso. Desde então, apaixonado pela Cabala, pelo hermetismo e mais especial­mente pela alquimia, mergulhou no estudo dos mais célebres autores do Renasci­mento. Queria não só descobrir o segredo das operações da natureza, mas também construir uma religião baseada no resultado de suas descobertas.
É certo que estes estudos acabaram por influenciar a sua obra, em especial o "Fausto", e o magistral conto da Serpente Verde, publicado em 1795 como parte de Conversas de Exilados Alemães. A história é uma alegoria sobre o lento processo de transformação espiritual por meio da Obra alquímica e atraiu o interesse de numerosos estudiosos como Jung, Rudolf Sterne e Oswald Wirth, entre outros.
Obra atemporal, pode-se encontrar nela uma relação direta com o momento atual, pois o conto aborda simbolicamente a viragem de uma época para outra. Aliás, o tema "nova era" já estava na pauta de pensadores como Goethe e Schiller, preocupados com a transformação social e a real evolução do espírito humano. Para Goethe, especificamente, isto seria uma tarefa para séculos, passando necessariamente por uma lenta e gra­dual transmutação no plano individual.
Sob o impacto da Revolução Francesa, Goethe registrou neste conto a sua antevisão da nova era. Além do evidente simbolismo alquímico, o conto aborda sob o véu da alegoria a temática da sucessão das eras zodiacais. Para ele, o novo ciclo não se resumia apenas às transformações sociais, mas significava também a real evolução do espírito humano.
Alguns astrólogos vêem na Revolução Francesa o primeiro sinal da decantada era de Aquário, marco inicial da derrocada do absolutismo para dar lugar aos novos tempos de igualdade, liberdade e fraternidade. Sem dúvida, tratou-se de um passo importante na esfera social, preparação necessária para um novo tempo. Agora, a próxima revolução deverá se dar no plano indivi­dual, com a morte iniciática e o conseqüente renascimento do homem em uma nova condição, capaz de vivenciar não só uma ética superior, mas também compreender o verdadeiro sentido do Amor e da Renúncia. A Serpente representa esta transfiguração, a ponte sem a qual jamais ultrapassaríamos o estágio em que estamos, alcançando aquele em que o "Eu" está pronto para sacrificar-se pelo "Nós".
(Publicado no blog astroanedotario.com.br)

O que há para ler:
Goethe, Memórias: Poesia e Verdade, Editora Globo, 1971
Oswald Wirth, L'Ésotérisme du Serpent Vert, Ed. Aux Éditions du Monde Nouveau, Paris, 1922
Oswald Wirth,
O Esoterismo da Serpente Verde, Bira Câmara Ed., S.P., 2001
Y. K. Centeno, A Simbologia Alquímica no Conto da Serpente Verde de Goethe, Editora Universidade Nova de Lisboa, 1976

Goethe-Wirth

Trecho do prefácio de Albert Lantoine para a 1ª edição da tradução francesa do Conto da Serpente Verde


Quantas vezes não ouvimos dizer com ironia: "Este crítico que analisa a tragédia de Racine descobre nela encantos que o próprio poeta jamais sonhou." Ele não percebe que a letra não pode limitar o espírito e esquece a virtude misteriosa do que se convencionou chamar de Inspiração. Toda idéia tem ressonâncias múltiplas, e nossa visão não deve se limitar ao seu cenário.
Os comentadores esclarecidos de um filósofo não auxiliam apenas o leitor a compreender sua doutrina, eles a revelam ao próprio filósofo.
Estudem Goethe! Não tenho a pretensão de analisar sua obra em poucas palavras; minha obrigação deve se limitar a apresentar ao público o brilho sutil de seu pensamento. Mas, sem este último, como não me perder nesta obra tão rica e tão robusta, à qual poderia se aplicar apropriadamente este verso de Albert Samain:
É a floresta do Sonho e do Encantamento.
Floresta plena de sol e de sombra, mas de uma sombra que se sente plena de luz, floresta onde a claridade do paganismo grego se casa com o simbolismo obscuro das crenças germânicas, e onde às vezes se tem a impressão de ver Vênus a dançar com Titânia.
Como me orientar, então, neste conto sem o fio de Ariadne que Oswald Wirth me estende com indulgência?

* * *

Goethe-Wirth. Certamente não podemos dar à aliança desses dois nomes um sentido analógico que ela não tem. Mas imagino – como em uma cena de Fausto – o pálido patriarca de Weimar inclinado sobre a face ascética de Oswald Wirth, ouvindo atentamente a engenhosa interpretação de seus sonhos. No entanto, os próprios alemães não se espantariam com esta intimidade. Eles sabem que não há pesquisador mais abalizado do que Wirth no estudo dos símbolos. Ele é o grande decifrador de hieróglifos, de nomes e de pantáculos onde sábios prudentes dissimularam aos Bárbaros no passado as riquezas de sua sabedoria. Ele as desvela aos sacerdotes que a esqueceram e aos franco-maçons que nunca compreenderam o mistério subjacente no esoterismo de seus gestos.
Na França, Oswald Wirth tem muitos admiradores, mas entre nós toda reputação de ocultista não deixa de inspirar alguma desconfiança. Existiram aqui – e existem ainda, infelizmente! – muitos charlatães que prostituíram a Grande Obra pela exploração de miseráveis crendices. Mas Oswald Wirth, apesar das sílabas cabalísticas de seu nome, é um bruxo moderno. O tarô não é um jogo de cartas trapaceadas nas mãos deste homem honrado.
Esta apresentação parece demasiado elogiosa – sobretudo ao próprio M. Wirth – a respeito deste pequeno livro onde ele pode dar toda a medida de sua "adivinhação". Mas não esqueçamos que ele é o autor do Livro do Mestre, e quero repetir aqui o que escrevi a seu respeito quando da publicação de seu Simbolismo Hermético ( * ):
É a elevação de sua alma que faz sua inteligência lúcida. Para entender o outro é preciso desfazer-se de toda mácula moral. A clarividência Daquele cujo reconhecimento popular santificou não tinha outra fonte senão a pureza de sua existência. Emerson – este crente que se aproximou do panteísmo de Goethe com uma inquietação deslumbrada – antecipou Wirth ao escrever:
"Todo espírito que não quer se enganar, por força da honestidade... pode superar todas as dificuldades como o sol de verão derrete as nuvens."
Wirth é possuído como seu mestre pela "simpatia universal". Eu, que no fundo sou um misantropo que sofre da indignidade humana, admiro com humildade este homem que se conforma. Ele não sofre por isso, porque a domina. Ele observa os erros sem se indignar, unicamente preocupado em ser o marinheiro – o Barqueiro do conto – para quem os recifes são talvez os marcos úteis na abordagem da Verdade. Ele sabe que os maus participam do encadeamento das coisas, dos seres e dos eventos, e que são as pobres luzinhas esparsas que terminam produzindo uma grande luz.
Este espiritualista que realiza milagres não desperta o sorriso do meu ceticismo impenitente. Toda beleza, seja física ou moral, me enche de uma emoção sagrada. E como o descrente que instintivamente se descobre em um templo onde as consciências perdidas vêm buscar asilo, eu saúdo este sonhador que, mesmo desligado de toda religião dogmática, é o mais religioso dos homens.


* * *

Leiamos o conto. Sem a trilha luminosa da Serpente Verde e sem a Lâmpada do Velho, eu seguiria os Fogos-Fátuos ou me perderia na fecunda obscuridade do Rio e do Jardim mágico.
Sem Oswald Wirth eu marcharia como um cego atrás da imaginação de Goethe.
Por mais paradoxal que possa parecer esta afirmação, eu digo que o discípulo é tão útil quanto o Mestre. João completa Jesus. O sonho inacessível de um, o outro faz descer das nuvens para a terra. O inspirado deve ao seu intérprete o respeito que se liga a seu Verbo.
É a sabedoria de seu Profeta que faz a grandeza de um Deus.

(tradução de Bira Câmara)


( * ) Wirth é também autor de «Les 22 Clefs Kabbalistiques du Tarot» (1889), «Rituel Interprétatif pour le grade d’Apprenti» (1893), L’Imposition des Mains et la Médicine Philosophale» (1897), «La Franc-Maçonnerie rendue intelligible à ses adeptes» (1909), «Les Signes du Zodiaque, leur symbolisme iniciatique» (1921) e «Le Poème d’Ishtar, mythe babylonien approfondi dans son ésotérisme» (1922).

domingo, 18 de outubro de 2009

Paracelso, alquimista, astrólogo e profeta


Paracelso, Barão Teofrasto Bombast von Hohenheim, nasceu em 1493 em Einsiedeln, perto de Zurique, e morreu em 1541 em Salzburg. Médico, aventureiro, mago e alquimista, dominou quase todo o conhecimento da época em que viveu. Além de sua língua materna, que era o alemão, falava também o francês, italiano, latim, grego, hebraico e árabe. Depois de cursar várias faculdades européias, convenceu-se da esterilidade do ensino escolástico e livresco. Mudou seu nome para Paracelso quando já era adulto, para enfatizar sua pretensão de ser o maior médico de sua época e de todos os tempos, maior até do que Celso, o célebre médico romano da antigüidade. Graças ao seu talento para a medicina, foi nomeado médico da cidade de Basiléia em 1527, além de desempenhar também a atividade de professor de física, medicina e cirurgia da universidade local. Sua arrogância e destempero verbal, bem como seu pouco caso pelos sentimentos alheios acabaram provocando a antipatia das autoridades. Desafiou o mundo erudito da época ao queimar os textos de Galeno (então a maior referência em medicina) e afirmar que se basearia unicamente no seu próprio conhecimento e experiência. Escreveu em alemão em vez do latim tradicional e acabou indo longe demais ao ofender um juiz, que o obrigou a abandonar a cidade.
Decidiu viajar para aprender seu ofício, acreditando que “a ciência não está reunida num único lugar, mas espalhada por toda a superfície da Terra”. Viajou pela Espanha, Portugal, Suécia, Polônia e vários países do Oriente. Na Tartária, foi hóspede do Grão-Khan, que ficou admirado com os conhecimentos de um homem tão jovem.
Defendeu o uso da astrologia na medicina, onde considerava importante conhecer o horóscopo do paciente para prescrever e ministrar os remédios nas horas mais propícias. Na obra “Livro dos Parágrafos” ele recomendou expressamente: “que vale o remédio que tu dás para a matriz da mulher se não fores guiado por Vênus? Que poderá o teu remédio para o cérebro se não for conduzido pela Lua? Se o Céu não te for favorável e não consentir em dirigir o teu remédio, não chegarás a nada”.
Acreditava que as estrelas e outros corpos, como os imãs, influenciavam os pacientes por meio de uma força universal que ele chamou de munia, cujo conceito é muito similar ao prana hindu. Segundo Paracelso, a força “não está encerrada no homem, mas irradia-se por dentro e ao redor dele como uma esfera luminosa”, o que pode ser entendido como aquilo que hoje chamamos de aura. Ao afirmar que as substâncias minerais, animais e vegetais poderiam ser purificadas e intensificadas a fim de produzirem princípios ativos para ser utilizados na cura, antecipou-se em dois séculos à homeopatia.
Além de ser reconhecido como grande sábio, atribuiu-se a ele também o dom da profecia. Quando esteve na Suécia, afirmou que seria encontrado ouro sob a neve, entre 63 e 65 graus de latitude norte. Esta profecia realizou-se em 1933: em Bolinden, foram descobertas minas de ouro a 64,5 graus de latitude norte...
Sua predição mais surpreendente está consignada na edição original de seu “Pronostic” (23/08/1536, Augsburg). Ali, com dois séculos e meio de antecedência, há a profecia da queda da monarquia francesa.

A magia astral de Marsilo Ficino

Marsilo Ficino (1433-1499), médico e sacerdote nascido em Florença, foi o primeiro tradutor europeu de Platão, tarefa que executou a pedido de Cosimo de Medici (1389-1464). No ano de 1460 Cosimo havia mandado trazer de Bizâncio para Florença alguns manuscritos gregos antigos, entre os quais estava o Corpus Hermeticum. Acreditava-se na época que os textos herméticos eram mais antigos que os de Platão e que continham preciosos ensinamentos da religião e da filosofia egípcia. Por esta razão, em 1463, já pressentindo o próprio fim, Cosimo determinou que se traduzisse primeiro o texto de Hermes, trabalho que Ficino realizou em poucos meses antes de sua morte. Esta tradução recebeu o título de Pimandro e corresponde apenas ao primeiro tratado da obra, anunciada como uma “prodigiosa revelação do saber egípcio”.
Antes de traduzir estes escritos, Ficino chegou a condenar a astrologia usando um trocadilho em latim: “o astrônomo mede (metitur), o astrólogo mente (mentitur)”. Mas, a partir de 1482, mudou de opinião e tentou explicar filosoficamente a ação dos astros sobre as diversas partes do corpo humano. Como médico, aceitava as teorias da época, que postulavam ser impossível a prática da medicina sem a astrologia. Sendo padre, teve de justificar-se pelo interesse pela medicina, astrologia e magia, alegando que nos tempos antigos os sacerdotes caldeus, persas e egípcios também praticavam a medicina e que o próprio Cristo era médico. Quanto ao interesse pela magia, defendeu-se explicando que haviam dois tipos de magia, uma demoníaca e ilícita, e outra natural, útil e necessária, que chamou de magia naturalis. Era esta última espécie a única que praticou. Sua principal obra é Teologia Platônica, além dos Libri de Vita, tratados de medicina divididos em três volumes, que utilizavam premissas astrológicas, como a de que os signos governam as partes do corpo, ou de que os diferentes temperamentos estão vinculados aos diferentes planetas. Nesta obra, publicada em 1489, Ficino apresentou um tipo diferente de magia que envolvia o uso de talismãs, para a cura das enfermidades e da melancolia. Sua teoria unia a medicina, a astrologia e a imaginação criativa em um método terapêutico revolucionário, segundo o qual as influências astrológicas favoráveis de um planeta específico poderiam ser atraídas meditando-se sobre as características das imagens da natureza daquele planeta. Esta meditação, se realizada pelos pacientes, provocaria a cura.
Baseado nos textos herméticos, Ficino propunha o uso do conhecimento das propriedades ocultas das substâncias, arranjadas “conforme os princípios da magia da simpatia”, e da canalização dos “efúvios de infuências” que jorram das estrelas para a Terra. Aos planetas eram associados uma complicada pseudociência de simpatias ocultas, utilizadas para a feitura de imagens e talismãs. Os doze signos do zodíaco também possuíam suas plantas, animais e imagens correspondentes, o mesmo acontecendo com todas as constelações e estrelas do céu, num sistema infinitamente complexo de relações onde tudo se tornava Um. O mago deveria entrar neste sistema e fazer uso dele, depois de identificar os laços das cadeias que descem do alto e estabelecer outra cadeia ascensional de liames, “usando corretamente as simpatias ocultas nas coisas terrestres, as imagens celestiais, as invocações e nomes”. Ficino resgatou dos arquivos dos templos egípcios as figuras dos deuses decanos que presidiam as formas de vida nascidas nos períodos governados por eles. Considerados como poderosas forças divinas ou demoníacas situadas acima do círculo do zodíaco e dos planetas, atuavam na Terra através dos demônios, ou ainda dos planetas.

Fontes:
Enciclopédia Luso Brasileira de Cultura, Ed. Verbo, Lisboa, 1984
Frances Yates, “Giordano Bruno e a Tradição Hermética”, Cultrix, 1987
Biografia di Marcilio Ficino, http://biografieonline.it/

A síntese hermética de Pico

Pico de la Mirandola (1463-1494), sábio italiano contemporâneo de Ficino, foi influenciado por suas idéias e acabou propondo uma síntese entre a magia naturalis e a cabala. Estudioso do hebraico, quando ainda tinha vinte e quatro anos de idade empreendeu a síntese total de todos os conhecimentos de sua época. Embora a sua magia fosse basicamente a mesma de Ficino, ele acreditava que era superior porque buscava entrar em contato com as forças espirituais mais elevadas, além das forças naturais do cosmos. A cabala invoca anjos, arcanjos, os dez sefirots (nomes ou forças de Deus) e o próprio Deus, recorrendo à magia e, sobretudo, à força do sagrado idioma hebraico. No entender de Pico, o conhecimento cabalístico era uma sabedoria mais sagrada e superior ao hermético, porque hebraica, além de confirmar a verdade do cristianismo.
De nada adiantou para Pico, tentar distinguir a sua magia cabalística da necromancia, ou magia demoníaca: devido à suspeita de heresia em suas teses, em 1487 o papa Inocêncio VIII designou uma comissão de teólogos para examiná-las. Como era de se esperar, várias de suas teses foram categoricamente condenadas e Pico teve de retratar-se. A publicação de sua obra foi proibida, mas o papa absolveu-o em consideração à sua submissão. Mesmo assim Pico fugiu para a França, onde suas idéias tinham mais aceitação, mas acabou encarcerado pelos emissários do clero na torre do Castelo de Vincennes.
Como Ficino, ele contava com a proteção de uma figura importante na Itália, Lorenzo de Médici, que intercedeu por ele junto ao papa, e permitiu que pudesse voltar à Florença. Em 1492, com Alexandre VI, o papa Bórgia, sucedendo Inocêncio, a sua situação melhorou. Este papa, um notório simpatizante da astrologia e da magia, absolveu-o completamente da acusação de heresia em 1493, e Pico pôde terminar seus dias levando uma existência de extrema piedade e ascetismo.
Mesmo simpatizante do hermetismo, procurou fazer distinção entre astronomia e astrologia, que não via com bons olhos por razões pessoais: na sua própria família havia assistido ao fiasco lamentável de algumas previsões astrológicas. Mas paradoxalmente a obra em que expôs sua magia, Conclusiones, era largamente colorida pela astrologia. Escreveu também, um ano antes de sua morte, um volumoso livro com o título de Disputationes adversus astrologiam divinatricem. Nela, combateu a astrologia divinatória e a crença de que o destino do homem possa ser determinado pelas estrelas.
Tentou refutar a astrologia estatisticamente, observando por 130 dias consecutivos a predição do tempo feita pelos astrólogos e constatou que estes só tinham acertado seis vezes... Por causa disso, foi chamado de “flagelo da astrologia” e morreu aos 31 anos de idade, como três astrólogos diferentes tinham predito, exatamente no instante em que Marte no seu horóscopo entrava na casa da morte. Segundo consta, um deles, chamado Bellanti, chegou a acertar o dia e a hora. Mas, como era odiado por todos os praticantes desta arte, era bem provável que eles se apressassem a predizer sua morte, o mais rápido possível.
Ao morrer, envenenado pelo seu secretário Cristovam de Casalmaggiore, a serviço de seus inimigos, Pico tinha quase concluída a sua obra “Astrologia Judiciária”.

Fontes:
Enciclopédia Luso Brasileira de Cultura, Ed. Verbo, Lisboa, 1984
Frances Yates, “Giordano Bruno e a Tradição Hermética”, Cultrix, 1987
Biografia de Pico della Mirandola, http://www.summagallicana.it/

sábado, 17 de outubro de 2009

Raymond Lulle

Escritor, astrólogo e alquimista nascido na Catalunha, Raymond Lulle (1232-1315), cognominado “O Iluminado”, escreveu um dos textos mais curiosos do período escolástico, “Ars Magna” (Arte Magna). É uma das figuras mais românticas do ocultismo do século XIII, cuja fama desafia o tempo. Sobre ele contam-se muitas lendas; diz-se que se apaixonou na juventude por uma mulher casada e que esta o dispensou gentilmente dizendo-lhe que a paixão dele era tal que levaria uma eternidade para acabar. Por causa disso ele teria resolvido se dedicar por trinta anos à busca alquímica do elixir da longa vida. Segundo a lenda, Lulle descobriu esta poção mágica e a bebeu, conquistando a imortalidade. No entanto, quando procurou sua amada para compartilhar com ela o elixir, encontrou-a muito doente e esta lhe disse que só a morte lhe traria consolo. De tanto desgosto, Lulle teria se convertido ao cristianismo, vagando pelo mundo e desafiando deliberadamente a fé islâmica na esperança de que o matassem. Mas, como se tornara imortal, sempre acabava sobrevivendo. Só conseguiu lograr o seu intento com idade avançada, depois de ter alcançado grande reputação como evangelista. Conta-se que Deus se apiedou dele e permitiu que morresse apedrejado...
O que se sabe de fato a respeito desta figura enigmática mistura-se à lenda, mas é provável que tenha sido casado e tornou-se frade aos trinta anos. Foi amigo de Dante Alighieri e, quando este esteve em Paris para defender sua tese na Sorbonne teria dado a Lulle um manuscrito cabalístico sobre o Inferno. Evocado como um dos precursores do teosofismo moderno, escreveu mais de 120 obras. Devido a penetração de suas idéias nas camadas mais cultas da época, teve seus livros condenados por uma bula papal em 1376.
Sua fama de alquimista levou o rei Eduardo II, da Inglaterra, a convidá-lo para uma estadia na sua corte, quando já beirava os setenta anos. Segundo Simon de Phares, Lulle teria descoberto a pedra filosofal e produziu ouro para este rei, com a condição de que fizesse a guerra contra os infiéis. O alquimista se ofereceu para fabricar todo o ouro e prata que necessitasse, mas o rei não cumpriu sua promessa encerrando-o numa fortaleza e obrigando-o a trabalhar à força. Ainda segundo este autor, a fortuna dos nobres da Inglaterra desta época deve-se ao ouro de Lulle... O alquimista foi libertado do cativeiro pela intercessão de Roger Bacon, que era seu amigo e tinha muita estima por ele.

Fontes:
Eileen Campbell e J. H. Brennan, “Dicionário da Mente, do Corpo e do Espírito”, Ed. Mandarim, 1997
Enciclopédia Luso Brasileira de Cultura, Ed. Verbo, Lisboa, 1984
Symon de Phares, “Recueil des plus célebres astrologues et des hommes doctes”, Honoré Champion Éditeur, Paris, 1929

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Hermes Trismegisto, mito ou figura histórica?

O lendário sacerdote egípcio Hermes Trismegisto, fundador da doutrina hermética, teria vivido por volta do ano 30 A.C., ao contrário do que se acreditava na Idade Média e Renascença, que lhe atribuiam a mais remota antigüidade. A sua famosa lei, segundo a qual “o que está em cima é igual ao que está em baixo”, tornou-se um dos chavões prediletos dos astrólogos e dos praticantes das “ciências ocultas”. Atribui-se também a ele a classificação astrológica dos sete tipos humanos, correspondentes aos sete planetas (Sol, Lua, Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter, Saturno), presentes nos manuais clássicos de astrologia, e também a divisão do zodíaco em 12 signos, que na verdade foi invenção dos caldeus.
A figura de Hermes (Mercúrio entre os latinos), foi associada ao deus egípcio Toth, escriba dos deuses e divindade da sabedoria. Segundo Cícero, havia cinco Mercúrios, sendo que o quinto e último fugiu para o Egito depois de matar Argos, onde adotou o nome de Teut ou Tot, levando a este povo suas leis e suas letras. Acreditava-se que era o mais sábio sacerdote egípcio, o maior filósofo por seus extensos conhecimentos, o mais santo de todos, razões pelas quais foi chamado Termaximus, ou Três Vezes Grande.
Inspirado nesta figura mítica desenvolveu-se uma extensa literatura em grego, consagrada à astrologia, às ciências ocultas, às virtudes das plantas e das pedras e, sobretudo, à fabricação de talismãs para atrair o poder das estrelas. Os escritores da época helenista consideravam Toth o patrono de todas as ciências, o inventor dos hieróglifos e um poderoso mágico. Teria criado o mundo por meio da palavra. Já os estóicos haviam identificado Hermes com o logos.
O interesse dos autores cristãos por Hermes Trismegisto deve-se em grande parte às referências e comentários de Lactâncio e Clemente de Alexandria, que o consideraram o primeiro autor de Teologia, fonte e origem de uma tradição de sabedoria anterior a Orfeu, Platão e Pitágoras, e antecipador do cristianismo. Roger Bacon chamava-o de “pai dos filósofos”, e uma obra de Alquimia do século XII afirmava a existência de três Hermes, chamados de Enoch, Noé e Hermes Triplex, rei, filósofo e profeta, que reinou no Egito após o Dilúvio. A mesma explicação aparece também em outro tratado de astrologia do século XIII. Havia pois a crença de que o seus livros revelavam um conhecimento divino e mistérios profundos, e neles Hermes não se mostrava apenas como filósofo, mas também como profeta falando do futuro. Atribuiu-se a ele a previsão do fim da religião antiga, o nascimento de uma nova fé e o advento de Cristo. Santo Agostinho creditou essas previsões às estrelas ou à revelação dos demônios. Já Lactâncio o situou entre as sibilas e os verdadeiros profetas. Na Idade Média, o nome de Hermes tornou-se muito conhecido e ligado à alquimia, à astrologia e à magia, em particular às imagens mágicas e talismãs.
O Corpus Hermeticum, conjunto de suas obras, foi objeto de estudos por muitos autores durante a Idade Média, como Tomás de Aquino e Alberto o Grande, entre outros, apesar da proibição da prática da magia pela Igreja medieval. Depois da tradução feita por Marsilo Ficino em 1463, a obra teve grande repercussão na Europa e incontáveis edições que atestam o profundo interesse e entusiasmo despertado por Hermes na Renascença. Mas, apesar de todo o mito criado em torno de sua antigüidade, a obra é bem mais recente do que se supunha, tendo sido composta entre 100 e 300 d. C. Segundo a maioria dos especialistas modernos, como Frances Yates, o Corpus Hermeticum não foi escrito na antigüidade remota por um onisciente sacerdote egípcio e sim por vários autores desconhecidos, todos possivelmente gregos, em datas variadas. Trata-se na verdade de uma mistura de “filosofia grega popular, platonismo e estoicismo, combinado com influências hebraicas e persas”. Os vários tratados que compõem o livro são muitas vezes contraditórios entre si e não se pode deduzir deles um sistema filosófico coerente. Toda a obra é baseada em referências astrológicas, mesmo quando ela não é explícita; o mundo material se encontra sob o domínio das estrelas e dos sete planetas, os “Sete Governadores” e as leis da natureza são as leis astrológicas.
Os escritos do Corpus Hermeticus foram classificados como pertencentes a dois tipos de gnose, uma do tipo pessimista e outra otimista. A gnose pessimista, ou dualista, vê o mundo material impregnado pela influência fatal das estrelas e mau por si mesmo. Assim, é preciso escapar dele através do ascetismo e evitar o contato com a matéria, para que a alma iluminada se eleve através das esferas dos planetas até alcançar o seu verdadeiro lar, localizado no mundo imaterial divino. Já para o gnóstico otimista, o divino impregna toda a matéria, a Terra é viva, impulsionada pela vida divina, e as estrelas são imensos seres vivos. O sol brilha com poder divino e não há parte da natureza que não seja boa, pois tudo pertence a Deus. Na hierarquia dos deuses herméticos, Júpiter é o senhor dos céus e distribuidor da vida para todos os seres; o Sol difunde a Luz para todos e ilumina as outras estrelas, sendo considerado um segundo deus que governa tudo o que vive. Seguem-se depois os trinta e seis deuses chamados Horóscopos ou Decanos, que são estrelas fixas, distribuídos de dez em dez graus dentro dos trezentos e sessenta graus em que o círculo do zodíaco está dividido. Os egípcios haviam divinizado o tempo não apenas no sentido abstrato, mas concretamente, de modo que cada momento do dia tinha o seu próprio deus, a ser invocado ou cultuado no decorrer dos momentos. Estes deuses egípcios que regiam o tempo, absorvidos pela astrologia grega sob o nome de decanos, acabaram assimilados pela astrologia caldéia e filiados ao zodíaco.

Magia Astral

O culto religioso ensinado por Hermes envolvia a prática da magia astral, capaz de animar as estátuas dos templos através do conhecimento das propriedades ocultas das substâncias, arranjadas “conforme os princípios da magia da simpatia e por introdução no interior das estátuas, mediante invocação, da vida dos deuses celestiais”. Segundo a doutrina hermética, “eflúvios de infuências” jorram das estrelas para a Terra, e podem ser canalizados por um operador que domine o conhecimento oculto. Essa “magia astral” associa aos planetas uma complicada pseudociência de simpatias ocultas e feitura de imagens. Os doze signos do zodíaco possuíam suas plantas, animais e imagens correspondentes, o mesmo acontecendo com todas as constelações e estrelas do céu. Neste sistema infinitamente complexo de relações, tudo se tornava Um. Ao mago caberia pois entrar neste sistema e fazer uso dele, “usando corretamente as simpatias ocultas nas coisas terrestres, as imagens celestiais, as invocações e nomes”. Assim, cada decano tinha a sua imagem própria, bem como vários aspectos, e presidiam as formas de vida nascidas nos períodos governados por eles. Considerados como poderosas forças divinas ou demoníacas situadas acima do círculo do zodíaco e dos planetas, atuavam na Terra através dos demônios, ou ainda dos planetas.
Há notáveis semelhanças entre o texto hermético e o Gênesis, o que levou autores como Ficino a conjecturar se Hermes não teria sido o próprio Moisés. No século dezesseis, muitos entusiastas religiosos ainda viam o sacerdote egípcio como uma figura de antigüidade remota e precursor do cristianismo. Mas em 1614, o helenista e teólogo calvinista francês Isaac Casaubon (1559-1614), embora reconhecendo a possibilidade de ter existido algum dia um homem chamado Hermes Trismegisto, provou que o Corpus Hermeticum não poderia ter sido escrito por ele, e lançou a suspeita de que esta obra, ou parte dela, tenha sido forjada pelos cristãos. Mas esta descoberta demorou a ser aceita, e a crença na sua antigüidade perdurou até o século seguinte.

Fontes:
Encyclopaedia Universalis, Éditeur À Paris, 1990
Frances Yates, “Giordano Bruno e a Tradição Hermética”, Cultrix, 1987
Mircéa Eliade, Hist. das Crenças e Idéias Religiosas, Tomo II, vol. 2, § 209