domingo, 18 de outubro de 2009

A magia astral de Marsilo Ficino

Marsilo Ficino (1433-1499), médico e sacerdote nascido em Florença, foi o primeiro tradutor europeu de Platão, tarefa que executou a pedido de Cosimo de Medici (1389-1464). No ano de 1460 Cosimo havia mandado trazer de Bizâncio para Florença alguns manuscritos gregos antigos, entre os quais estava o Corpus Hermeticum. Acreditava-se na época que os textos herméticos eram mais antigos que os de Platão e que continham preciosos ensinamentos da religião e da filosofia egípcia. Por esta razão, em 1463, já pressentindo o próprio fim, Cosimo determinou que se traduzisse primeiro o texto de Hermes, trabalho que Ficino realizou em poucos meses antes de sua morte. Esta tradução recebeu o título de Pimandro e corresponde apenas ao primeiro tratado da obra, anunciada como uma “prodigiosa revelação do saber egípcio”.
Antes de traduzir estes escritos, Ficino chegou a condenar a astrologia usando um trocadilho em latim: “o astrônomo mede (metitur), o astrólogo mente (mentitur)”. Mas, a partir de 1482, mudou de opinião e tentou explicar filosoficamente a ação dos astros sobre as diversas partes do corpo humano. Como médico, aceitava as teorias da época, que postulavam ser impossível a prática da medicina sem a astrologia. Sendo padre, teve de justificar-se pelo interesse pela medicina, astrologia e magia, alegando que nos tempos antigos os sacerdotes caldeus, persas e egípcios também praticavam a medicina e que o próprio Cristo era médico. Quanto ao interesse pela magia, defendeu-se explicando que haviam dois tipos de magia, uma demoníaca e ilícita, e outra natural, útil e necessária, que chamou de magia naturalis. Era esta última espécie a única que praticou. Sua principal obra é Teologia Platônica, além dos Libri de Vita, tratados de medicina divididos em três volumes, que utilizavam premissas astrológicas, como a de que os signos governam as partes do corpo, ou de que os diferentes temperamentos estão vinculados aos diferentes planetas. Nesta obra, publicada em 1489, Ficino apresentou um tipo diferente de magia que envolvia o uso de talismãs, para a cura das enfermidades e da melancolia. Sua teoria unia a medicina, a astrologia e a imaginação criativa em um método terapêutico revolucionário, segundo o qual as influências astrológicas favoráveis de um planeta específico poderiam ser atraídas meditando-se sobre as características das imagens da natureza daquele planeta. Esta meditação, se realizada pelos pacientes, provocaria a cura.
Baseado nos textos herméticos, Ficino propunha o uso do conhecimento das propriedades ocultas das substâncias, arranjadas “conforme os princípios da magia da simpatia”, e da canalização dos “efúvios de infuências” que jorram das estrelas para a Terra. Aos planetas eram associados uma complicada pseudociência de simpatias ocultas, utilizadas para a feitura de imagens e talismãs. Os doze signos do zodíaco também possuíam suas plantas, animais e imagens correspondentes, o mesmo acontecendo com todas as constelações e estrelas do céu, num sistema infinitamente complexo de relações onde tudo se tornava Um. O mago deveria entrar neste sistema e fazer uso dele, depois de identificar os laços das cadeias que descem do alto e estabelecer outra cadeia ascensional de liames, “usando corretamente as simpatias ocultas nas coisas terrestres, as imagens celestiais, as invocações e nomes”. Ficino resgatou dos arquivos dos templos egípcios as figuras dos deuses decanos que presidiam as formas de vida nascidas nos períodos governados por eles. Considerados como poderosas forças divinas ou demoníacas situadas acima do círculo do zodíaco e dos planetas, atuavam na Terra através dos demônios, ou ainda dos planetas.

Fontes:
Enciclopédia Luso Brasileira de Cultura, Ed. Verbo, Lisboa, 1984
Frances Yates, “Giordano Bruno e a Tradição Hermética”, Cultrix, 1987
Biografia di Marcilio Ficino, http://biografieonline.it/

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