sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Hermes Trismegisto, mito ou figura histórica?

O lendário sacerdote egípcio Hermes Trismegisto, fundador da doutrina hermética, teria vivido por volta do ano 30 A.C., ao contrário do que se acreditava na Idade Média e Renascença, que lhe atribuiam a mais remota antigüidade. A sua famosa lei, segundo a qual “o que está em cima é igual ao que está em baixo”, tornou-se um dos chavões prediletos dos astrólogos e dos praticantes das “ciências ocultas”. Atribui-se também a ele a classificação astrológica dos sete tipos humanos, correspondentes aos sete planetas (Sol, Lua, Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter, Saturno), presentes nos manuais clássicos de astrologia, e também a divisão do zodíaco em 12 signos, que na verdade foi invenção dos caldeus.
A figura de Hermes (Mercúrio entre os latinos), foi associada ao deus egípcio Toth, escriba dos deuses e divindade da sabedoria. Segundo Cícero, havia cinco Mercúrios, sendo que o quinto e último fugiu para o Egito depois de matar Argos, onde adotou o nome de Teut ou Tot, levando a este povo suas leis e suas letras. Acreditava-se que era o mais sábio sacerdote egípcio, o maior filósofo por seus extensos conhecimentos, o mais santo de todos, razões pelas quais foi chamado Termaximus, ou Três Vezes Grande.
Inspirado nesta figura mítica desenvolveu-se uma extensa literatura em grego, consagrada à astrologia, às ciências ocultas, às virtudes das plantas e das pedras e, sobretudo, à fabricação de talismãs para atrair o poder das estrelas. Os escritores da época helenista consideravam Toth o patrono de todas as ciências, o inventor dos hieróglifos e um poderoso mágico. Teria criado o mundo por meio da palavra. Já os estóicos haviam identificado Hermes com o logos.
O interesse dos autores cristãos por Hermes Trismegisto deve-se em grande parte às referências e comentários de Lactâncio e Clemente de Alexandria, que o consideraram o primeiro autor de Teologia, fonte e origem de uma tradição de sabedoria anterior a Orfeu, Platão e Pitágoras, e antecipador do cristianismo. Roger Bacon chamava-o de “pai dos filósofos”, e uma obra de Alquimia do século XII afirmava a existência de três Hermes, chamados de Enoch, Noé e Hermes Triplex, rei, filósofo e profeta, que reinou no Egito após o Dilúvio. A mesma explicação aparece também em outro tratado de astrologia do século XIII. Havia pois a crença de que o seus livros revelavam um conhecimento divino e mistérios profundos, e neles Hermes não se mostrava apenas como filósofo, mas também como profeta falando do futuro. Atribuiu-se a ele a previsão do fim da religião antiga, o nascimento de uma nova fé e o advento de Cristo. Santo Agostinho creditou essas previsões às estrelas ou à revelação dos demônios. Já Lactâncio o situou entre as sibilas e os verdadeiros profetas. Na Idade Média, o nome de Hermes tornou-se muito conhecido e ligado à alquimia, à astrologia e à magia, em particular às imagens mágicas e talismãs.
O Corpus Hermeticum, conjunto de suas obras, foi objeto de estudos por muitos autores durante a Idade Média, como Tomás de Aquino e Alberto o Grande, entre outros, apesar da proibição da prática da magia pela Igreja medieval. Depois da tradução feita por Marsilo Ficino em 1463, a obra teve grande repercussão na Europa e incontáveis edições que atestam o profundo interesse e entusiasmo despertado por Hermes na Renascença. Mas, apesar de todo o mito criado em torno de sua antigüidade, a obra é bem mais recente do que se supunha, tendo sido composta entre 100 e 300 d. C. Segundo a maioria dos especialistas modernos, como Frances Yates, o Corpus Hermeticum não foi escrito na antigüidade remota por um onisciente sacerdote egípcio e sim por vários autores desconhecidos, todos possivelmente gregos, em datas variadas. Trata-se na verdade de uma mistura de “filosofia grega popular, platonismo e estoicismo, combinado com influências hebraicas e persas”. Os vários tratados que compõem o livro são muitas vezes contraditórios entre si e não se pode deduzir deles um sistema filosófico coerente. Toda a obra é baseada em referências astrológicas, mesmo quando ela não é explícita; o mundo material se encontra sob o domínio das estrelas e dos sete planetas, os “Sete Governadores” e as leis da natureza são as leis astrológicas.
Os escritos do Corpus Hermeticus foram classificados como pertencentes a dois tipos de gnose, uma do tipo pessimista e outra otimista. A gnose pessimista, ou dualista, vê o mundo material impregnado pela influência fatal das estrelas e mau por si mesmo. Assim, é preciso escapar dele através do ascetismo e evitar o contato com a matéria, para que a alma iluminada se eleve através das esferas dos planetas até alcançar o seu verdadeiro lar, localizado no mundo imaterial divino. Já para o gnóstico otimista, o divino impregna toda a matéria, a Terra é viva, impulsionada pela vida divina, e as estrelas são imensos seres vivos. O sol brilha com poder divino e não há parte da natureza que não seja boa, pois tudo pertence a Deus. Na hierarquia dos deuses herméticos, Júpiter é o senhor dos céus e distribuidor da vida para todos os seres; o Sol difunde a Luz para todos e ilumina as outras estrelas, sendo considerado um segundo deus que governa tudo o que vive. Seguem-se depois os trinta e seis deuses chamados Horóscopos ou Decanos, que são estrelas fixas, distribuídos de dez em dez graus dentro dos trezentos e sessenta graus em que o círculo do zodíaco está dividido. Os egípcios haviam divinizado o tempo não apenas no sentido abstrato, mas concretamente, de modo que cada momento do dia tinha o seu próprio deus, a ser invocado ou cultuado no decorrer dos momentos. Estes deuses egípcios que regiam o tempo, absorvidos pela astrologia grega sob o nome de decanos, acabaram assimilados pela astrologia caldéia e filiados ao zodíaco.

Magia Astral

O culto religioso ensinado por Hermes envolvia a prática da magia astral, capaz de animar as estátuas dos templos através do conhecimento das propriedades ocultas das substâncias, arranjadas “conforme os princípios da magia da simpatia e por introdução no interior das estátuas, mediante invocação, da vida dos deuses celestiais”. Segundo a doutrina hermética, “eflúvios de infuências” jorram das estrelas para a Terra, e podem ser canalizados por um operador que domine o conhecimento oculto. Essa “magia astral” associa aos planetas uma complicada pseudociência de simpatias ocultas e feitura de imagens. Os doze signos do zodíaco possuíam suas plantas, animais e imagens correspondentes, o mesmo acontecendo com todas as constelações e estrelas do céu. Neste sistema infinitamente complexo de relações, tudo se tornava Um. Ao mago caberia pois entrar neste sistema e fazer uso dele, “usando corretamente as simpatias ocultas nas coisas terrestres, as imagens celestiais, as invocações e nomes”. Assim, cada decano tinha a sua imagem própria, bem como vários aspectos, e presidiam as formas de vida nascidas nos períodos governados por eles. Considerados como poderosas forças divinas ou demoníacas situadas acima do círculo do zodíaco e dos planetas, atuavam na Terra através dos demônios, ou ainda dos planetas.
Há notáveis semelhanças entre o texto hermético e o Gênesis, o que levou autores como Ficino a conjecturar se Hermes não teria sido o próprio Moisés. No século dezesseis, muitos entusiastas religiosos ainda viam o sacerdote egípcio como uma figura de antigüidade remota e precursor do cristianismo. Mas em 1614, o helenista e teólogo calvinista francês Isaac Casaubon (1559-1614), embora reconhecendo a possibilidade de ter existido algum dia um homem chamado Hermes Trismegisto, provou que o Corpus Hermeticum não poderia ter sido escrito por ele, e lançou a suspeita de que esta obra, ou parte dela, tenha sido forjada pelos cristãos. Mas esta descoberta demorou a ser aceita, e a crença na sua antigüidade perdurou até o século seguinte.

Fontes:
Encyclopaedia Universalis, Éditeur À Paris, 1990
Frances Yates, “Giordano Bruno e a Tradição Hermética”, Cultrix, 1987
Mircéa Eliade, Hist. das Crenças e Idéias Religiosas, Tomo II, vol. 2, § 209

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