segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Goethe e as Afinidades Astrológicas

Goethe (1749-1832), além de escritor genial tam­bém se dedicou a estudos alquímicos e se inte­ressou pela astrologia. Pesquisou o momento exato do seu nascimento e levantou horóscopos com o propósito de compará-los com o seu. Assim, registrou a coincidência entre sua casa solar (o signo de Virgem) e a casa lunar de Chris­tiane Vulpius, a mais importante de suas amantes...
Goethe atribuía o êxito de seus dois principais personagens, Fausto e Werther, ao concurso de alguns planetas benéficos em seu mapa astrológico: Sol em Virgem; Júpiter e Vênus em bom aspecto com ele; Saturno e Marte neutros... Acreditava mesmo que havia sobrevivido ao parto graças a esta feliz constelação, pois, ao nascer fora dado como morto e só depois de muitos esforços conseguiu ver a luz.
Goethe tornou-se membro da franco-maçonaria em 1780. Mas antes disso, perto de seu vigésimo aniversário, ele já era iniciado em todos os conhecimentos misteriosos do passado. Durante o período de 1768 a 1770 teve sérios problemas de saúde e curou-se com a ajuda de um médico adepto de Paracelso. Desde então, apaixonado pela Cabala, pelo hermetismo e mais especial­mente pela alquimia, mergulhou no estudo dos mais célebres autores do Renasci­mento. Queria não só descobrir o segredo das operações da natureza, mas também construir uma religião baseada no resultado de suas descobertas.
É certo que estes estudos acabaram por influenciar a sua obra, em especial o "Fausto", e o magistral conto da Serpente Verde, publicado em 1795 como parte de Conversas de Exilados Alemães. A história é uma alegoria sobre o lento processo de transformação espiritual por meio da Obra alquímica e atraiu o interesse de numerosos estudiosos como Jung, Rudolf Sterne e Oswald Wirth, entre outros.
Obra atemporal, pode-se encontrar nela uma relação direta com o momento atual, pois o conto aborda simbolicamente a viragem de uma época para outra. Aliás, o tema "nova era" já estava na pauta de pensadores como Goethe e Schiller, preocupados com a transformação social e a real evolução do espírito humano. Para Goethe, especificamente, isto seria uma tarefa para séculos, passando necessariamente por uma lenta e gra­dual transmutação no plano individual.
Sob o impacto da Revolução Francesa, Goethe registrou neste conto a sua antevisão da nova era. Além do evidente simbolismo alquímico, o conto aborda sob o véu da alegoria a temática da sucessão das eras zodiacais. Para ele, o novo ciclo não se resumia apenas às transformações sociais, mas significava também a real evolução do espírito humano.
Alguns astrólogos vêem na Revolução Francesa o primeiro sinal da decantada era de Aquário, marco inicial da derrocada do absolutismo para dar lugar aos novos tempos de igualdade, liberdade e fraternidade. Sem dúvida, tratou-se de um passo importante na esfera social, preparação necessária para um novo tempo. Agora, a próxima revolução deverá se dar no plano indivi­dual, com a morte iniciática e o conseqüente renascimento do homem em uma nova condição, capaz de vivenciar não só uma ética superior, mas também compreender o verdadeiro sentido do Amor e da Renúncia. A Serpente representa esta transfiguração, a ponte sem a qual jamais ultrapassaríamos o estágio em que estamos, alcançando aquele em que o "Eu" está pronto para sacrificar-se pelo "Nós".
(Publicado no blog astroanedotario.com.br)

O que há para ler:
Goethe, Memórias: Poesia e Verdade, Editora Globo, 1971
Oswald Wirth, L'Ésotérisme du Serpent Vert, Ed. Aux Éditions du Monde Nouveau, Paris, 1922
Oswald Wirth,
O Esoterismo da Serpente Verde, Bira Câmara Ed., S.P., 2001
Y. K. Centeno, A Simbologia Alquímica no Conto da Serpente Verde de Goethe, Editora Universidade Nova de Lisboa, 1976

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